9.1.13

Dilema

Eu estava com o telefone nas mão quando lembrei, sem motivo aparente, de um antigo paciente, cujo nome era Gregório.
No inicio fiquei surpreso, Gregório havia aparecido, ou melhor, despencado na porta do meu consultório, era alto, aparentava ter uns 70 anos, cabelo grisalho, cabisbaixo e segurava trêmulo algumas folhas. Perguntei sobre o que se tratava, e ele, sem dizer nada me entregou algumas; passei os olhos rapidamente e me atentei para uma frase que basicamente dizia : - dê a este homem quantas sessões de terapia ele precisar - e embaixo o carimbo do seu plano de saúde.
Perguntei a Gregório como ele conseguiu isso, normalmente os planos de saúde desprezam a terapia: eles acham caro demais e insuficiente demais. Claro, para seus bolsos não é um bom negócio. Então Gregório me entregou sua última folha: uma ordem judicial mandando o seu plano de saúde custear sessões de terapia o quanto fosse necessário.
Isso explicava alguma coisa, mas não tudo, parecia que eu tinha em mãos uma batata quente que já havia sido esfriada pelas varias mãos anteriores as minhas.
No decorrer do tratamento descobri que Gregório estava profundamente amargurado pelo abandono de seus dois filhos - ambos já com uma família estruturada - o que culminou com um processo judicial por abandono afetivo. A última vez que Gregório viu os seus dois filhos foi numa mesa de audiência que resultou em uma obrigação de indenizar. O pobre homem recebia todo mês um cheque com a seguinte frase no verso: ''espero que esse seja o último''.
Bem, tentei de todas as formas uma aproximação entre eles, mas foi inútil. Não podia fazer muita coisa por Gregório. E, passada algumas sessões recebi a notícia de um médico do plano de saúde que Gregório havia cometido suicídio.
O final do drama culminou com a prisão e posterior condenação de seus dois filhos por homicídio doloso e os cheques guardados pelo banco serviram de prova.
Mas eu sabia porque tinha me lembrado de Gregório naquele dia. Ele me dissera algumas vezes que eu achava que podia ajudar qualquer um. Parecia que ele estava lá para provar que eu estava errado, que era minha ilusão e que eu devia me livrar dela, provando que eu não poderia ajuda-lo.
Eu estava com o telefone em mãos, prestes a indicar um dos meus pacientes para outro terapeuta.