27.8.11

Cosmologia do chapéu.

Levantei da grama com o chapéu nas mãos; olhava-o atentamente diante de mim. Parecia ser feito de um couro estranho, era liso e escuro, sem sinal de costuras ou qualquer mínima falha. Olhei por dentro e também não havia costura, mas apenas um desenho: um circulo verde com linhas traçadas na horizontal e vertical.

Enquanto eu estava distraído com o chapéu nas mãos uma luz me iluminou, parecia o farol de um carro. Olhei para o céu e vi que centenas de naves espaciais estavam descendo; homens estavam em queda livre, centenas deles caiam ao meu redor. Olhei confuso e aterrorizado para tudo o que estava acontecendo, minha mente deu um giro de 360º e eu estava completamente cercado pelo que pareciam seres humanos com traje social e sobretudo azul empunhando armas estranhas, parecidas com armas de fogo. Minhas mãos tremiam.

- manus tollere, поднимите руки, あなたの手を上げる, raise your hands... Levante suas mãos garoto, somos a Polícia da SLC. Você me compreende? - dizia um homem caminhando com um auto-falante em minha direção. Era alto loiro e um manto azul, parecendo um sobretudo, cobria seu pescoço até os pés. Uma aura azul e amarela se desprendia do seu corpo, produzindo uma sensação de bem estar.

Levantei minhas duas mãos para o alto segurando o chapéu sobre minha cabeça. E.... simplesmente soltei... caiu sobre minha cabeça, encaixou-se perfeitamente.

- Homens, não há o que fazer! ABRAM FOGO.- Disse a figura com o auto-falante.

Levantei minhas mãos na altura dos meus olhos e observava uma transformação, enquanto projéteis passavam pelo meu corpo a uma velocidade incrível. Raios laser azuis que pareciam coisa de filme de ficção transpassavam o meu corpo.

Enquanto meu corpo mudava, os meus trajes precários se transformavam e um roupa social escura igual a do homem de chapéu. Minha calça vagabunda tomava forma de um tecido escuro de ótima aparência, meus tênis all-star agora eram sapatos socias. Muita fumaça saia de meu corpo.

Os tiros cessaram e todas as naves e os homens da polícia partiam em retirada. Mas, na minha mente eu escutava o homem de chapéu:

- O amor é uma artimanha finamente orquestrada pela sua natureza, com o único fim de perpetuar a espécie. Liberte-se, torne-se livre para caminhar num universo de infinitas possibilidades.

Então eu vi duas paredes colossais parecidas com folhas de papel, uma ao lado da outra em constante ondulação, quando uma das ondulações tocou uma na outra uma enorme quantidade de matéria bruta se deslocou e explodiu.

Eu via um dos pedaços incandescentes vagando no espaço. Eu estava nele... eu vi o homem de chapéu caminhar sobre o magma. Ele se agachou e pegou uma quantidade de fogo derretido com as mão , assoprou e disse:

- QUE SE FORME A VIDA!- e o magma pulsava sozinho.

Depois eu vi o homem de chapéu caminhando ao lado do que parecia ser um macaco meio humano. Ele pegou um pouco de carne podre e devorou com as mãos nuas e peludas. O homem de chapéu lhe deu duas pedras e fez um movimento de chocar uma com a outra.
Então o homem-macaco fez o mesmo...uma linda faisca se desprendeu e caiu na mata seca, iniciando-se um fogaréu. O homem macaco pulava de alegria e corria em volta do fogo.

Depois eu vi o homem de chapéu ao lado de um homem alto e belo. Lhe dizendo: há um mundo no qual você não pode tocar. E este homem pensou e teve uma ideia sobre isso.

Depois eu vi o homem de chapéu caminhando ao lado de um povo no deserto e lhes dizendo: Defenda essa terra com suas vidas, pois ela é sagrada. Eles, então, deram o nome de Yerushaláyim (Jerusalém).

Depois eu vi o homem de chapéu, ao lado de um homem pendurado numa cruz. Este homem lhe dizia: pai, porque tu, hó, grandioso, me abandonastes? Mas o homem de chapéu lhe dera as costas.

Depois eu vi o homem de chapéu em um grande templo onde um padre louro de olhos azuis vestido com uma batina preta rezava ajoelhado diante do homem da cruz. Em seus pensamentos ele perguntava porque Deus não lhe enviara o sinal. Então o homem de chapéu apareceu e lhe sussurrou nos ouvidos: você pertence a uma raça superior.

E o homem louro lutou por isso.

Eu vi todos as culturas se chocando umas contra as outras, a imagem de todas as guerras passavam como um filme. Mas agora eu via pelo avesso, eram um conjunto de forças se chocando e gerando explosões contínuas.

Voltei a mim, eu estava no parque, vestido a lá homem de chapéu. Caminhei sobre a grama como um deus. Me sentia poderoso...sentia que tinha uma força destruidora insuperável. Enquanto andava meu sobretudo negro roçava na grama, e eu olhava ao redor, como um imperador.

- Faça, você deve fazer- uma voz falava em minha mente.

Estiquei meus dois braços, e fiz menção de rasgar uma folha de papel. Minhas mãos brilhavam e eu "rasguei" a realidade e um buraco negro se formou. Eu via todas as realidades possíveis em grau microscópico.
Então eu perguntei: O que é SLC?

SLC são as siglas de Suprema Legislação Cultural- respondeu o homem de chapéu.
Em uma realidade desconhecida, cinco legisladores supremos decidiram criar a ordem do universo, com uma legislação tão perfeita capaz de persuadir todas as raças inimagináveis.
Para aplicar a SLC, os cinco legisladores criaram células de influência, e os lançaram em todos os mundos conhecidos.

Eu via uma grande estrada que acabava em um precipício: vi centenas de homens de chapéu caminhando sobre ela, e se atirando no vácuo, em queda livre. O lado dessa estrada existia um grande colina, e no topo eu vi o que seria uma figura humana com um traje branco e apontando com uma das mãos em direção ao infinito.

Esse é um dos legisladores - disse o homem de chapéu, abrindo um enorme sorriso.





19.8.11

Verdades difíceis.

Pensei que nunca mais ia vê-lo, homem de chapéu.

Eu estava sentado no banco de um parque e na minha frente - a uns 10 metros- encontrava-se um grande lago, ao lado do banco uma arandela que piscava sem parar. Ficava sentado ali esperando as respostas na minha mente quando o homem de chapéu veio caminhando em minha direção, pelo lado oposto ao da lâmpada; enquanto ela piscava via a imagem do homem de chapéu aparecer e desaparecer, até que ele chegou perto o suficiente.

Homem de chapéu, porque eu estou lhe vendo novamente, por que? Pensei que tivesse encontrado uma forma de eliminá-lo. Pensei que podia alterar o meu destino.

O homem de chapéu me deu as costas, levantou o braço esquerdo e retirou o chapéu com uma das mãos. Seus longos cabelos negros caiam sobre o paletó em seus ombros. Ele inclinou a cabeça para baixo e fez menção de estar acendendo um cigarro... eu vi a fumaça. Voltou a ficar de frente para mim, me olhou nos olhos - me sentia com frio agora-. Seu olhos e cabelos eram negros como a noite, como o nada - nihil-.

-Garoto, o que você faz ou deixa de fazer apenas altera em maior ou menor tempo a concretização do que já está previsto- Disse aquela figura monstruosa.

-Não pode ser, então nada que eu faça vai alterar o meu destino? Não pode ser...e se eu te matar agora homem de chapéu, isso tudo vai terminar, tenho certeza, vou matá-lo agora homem de chapéu.

Me levantei do banco apontando uma arma automática 9mm que puxei da cintura na velocidade de um raio. Estava frente a frente com o homem de chapéu. O laser estava trêmulo por causa de minhas mãos vacilantes. Porém estava centrado no meio de sua testa- o homem de chapéu sorriu.

-Garoto, a morte é um privilégio dos seres inferiores, incapazes de conviver com si mesmos por tempo maior que um testudines sobrevive nesse mundo.

Atirei antes de entender o que ele havia dito. Vi uma luz verde e a bala ficou lenta, via ela percorrendo o caminho e cortando o ar lentamente enquanto o homem de chapéu caminhava sem hesitar, em direção a ela. Atravessou-lhe a testa que parecia ser feita de fumaça, todo ele parecia ser fumaça.

-Viu agora garoto? -disse o homem
Me inclinei andando para trás e apontei a arma para minha própria cabeça. E se eu me matar agora, maldito, o quê vai acontecer em?

-Nada acontecerá e você retornará a este local a este instante e teremos essa mesma conversa; terá a chance de tomar outra decisão. Apenas isso.

-Não pode ser, o que é este mundo? É um pesadelo. Tudo que eu fizer, não importa o quê: eu não tenho escolha!

-A escolha é apenas um processo fisiológico de desenvolvimento contínuo da consciência. Nenhuma animal a possui exceto o homem, porém isso não faz dele melhor ou pior, sua consciência é um órgão em desenvolvimento; a escolha é apenas algo inventado por ela, para desenvolver-se como um organismo qualquer.

O choque foi tremendo, por um momento a minha consciência tomou "consciência" das mentiras perpetradas por ela mesmo, dos erros e confusões geradas por ela própria. Mas é como se eu não pudesse compreender, a consciência é incapaz de olhar para dentro dela mesma.

-Então veja garoto, se eu disser mais alguma coisa, tornarei a sua existência extremamente dolorosa. Serei compassivo com você, parodiando o mestre da sua época- o homem de chapéu sorria-.

-Por queeeeeeee? Por queeeeeeeee? - enquanto gritava eu caia ajoelhado na grama e a arrancava da terra.

-Veja como o ser humano é patético: isso é tudo que pode fazer? - disse ironicamente.

-Cansei de suas colocações estúpidas homem de chapéu.
Levantei-me do chão e corri em direção a ele , desferi um soco em seu peito, porém meu braço atravessou-o como numa nuvem de fumaça.

-O material de que você é feito demonstra o péssimo gosto que a sua "natureza" possui. Imagem e semelhança do criador? ha-ha-ha, como são ingênuos.
Imagine que você assista um filme, cujo final ja é sabido... imagine que apesar de todos os esforços dos personagens você ja saiba que ele vai vencer ou perder, não importa o que aconteça o final será o mesmo.
Sua vida é assim, e não só a sua... mas a de todos neste mundo. Um dia todos terão acesso a essa informação e suas consciências sofrerão. Eu tenho acesso a todas as verdades que o homem pode suportar, porém existem coisas que nem eu sei ha-ha-ha, mas acredite garoto, você não quer saber o que eu sei.
Em uma época distante o homem me adorou, criou templos negros em meu nome, fizeram cultos, sacrifícios e me chamavam de "time walker". Quisera ser como eu.

- Certo homem de chapéu- dizia eu deitado na grama olhando para cima. O que eu devo fazer? Homem de chapéu?
Ele se fora, e um chapéu negro lentamente vinha do céu em minha direção. Levantei o braço e peguei.


7.8.11

La solitude éternelle

O feixe de luz verde do homem de chapéu cortava a realidade em duas metades, em dois mundos; e eu me via vivendo nestes mundos.

De diferentes formas eu vivia, porém era sempre o mesmo.

Se o meu destino fora traçado, nada eu podia fazer a não ser aceitar.

Enquanto eu pensava, via seus olhos encherem de lágrimas; o vento jogava seus longos cabelos louros contra o rosto e sua figura lentamente sumia diante de mim. Não mais podia alcança-la, nem mesmo em pesamento... era o fim.

Qual é o seu destino, garoto? Perguntava o homem do chapéu, enquanto sua face lentamente se moldava em um belo sorriso irónico e sagas.

Não há outro se não a eterna solidão! Meu amigo de infortúnio, e carrasco. Leve-me para além do horizonte, onde não se cré em nenhuma verdade, e onde não mais se espera pelo amor.