9.1.11

v-01

Como toda criança, eu tinha vários brinquedos; e adorava brincar no quintal lá de casa. Em baixo da escada tinha um baú repleto deles, mas eu adorava destruí-los e guardar os seus pedaços dentro desse baú.

Não importava o preço, ou qual era o valor do brinquedo, eu apenas destruía e guardava seus pedaços...essa era minha felicidade. Mas, num belo dia vasculhando o baú até o fundo, com o tórax quase la no fundo e meus pequenos pés e pernas balançando pra fora da caixa, eu tirei dalí uma rosa negra.

Estava negra pelo tempo, putrefata e repleta de teias de aranha...agarrei-a com as duas mãos e dei dois passos para trás da caixa, inspirei todo ar que meus insignificantes pulmões conseguiram e assoprei a rosa negra até perder o fôlego.

Seus pedaços foram longe com o ar, e uma nuvem de poeira e de cores escuras moldaram o ambiente por aqueles pequenos segundos diante de mim. O espetáculo se mostrava terrivelmente maravilhoso diante de meus olhos pueris, pois jamais tinha visto tamanha beleza em algo que deixava gradualmente de existir.

Assim era Lúcifer, um beleza parecida com a da rosa pútrida que encontrara naquele baú quando criança.

-Oi garoto, bem vindo aos meus domínios-- falou o príncipe das trevas.

Falava pausadamente e com extrema cautela, como se houvesse apenas uma oportunidade para fazer aquela ação. Quando terminou de falar, já estava diante de mim. Não olhava nos meus olhos, porém seu semblante era nobre, sua expressão facial não se alterava... Parecia que se centenas de demônios investissem contra ele, permaneceria com a mesma expressão serena e melancólica.

-Você é Lúcifer, o anjo que traiu Deus? -- perguntei, mas já prestes a dar um passo para trás.
-Muitos nomes me foram dados. E quanto à Deus.... só um tolo trairia alguém que não pode vencer.
-Então o que quer de mim? - perguntei.
-Em breve haverá uma grande guerra, tão grandiosa que os perdedores ficarão com o estigma de mau e os vencedores serão os justos. Cada general do inferno nascerá em um país da Terra e se infiltrará nas famílias poderosas e gerará influência para que um exercito nos meus moldes venha a ser formado. Preciso que ao final disso você comande os exércitos aqui do inferno.

Suas palavras ecoavam na minha mente como se eu não tivesse escolha. Lúcifer era um artista sedutor, com certeza. Me fazia querer saber o que se passava em sua mente, e era como se eu começasse a sentir prazer em servir.

-Mas o que eu ganho com isso?- disse, sem pensar.
-Avareza, não poderia esperar menos de você. Certamente é um dos meus generais, perdidos pelos mundos. Deus tentou escondê-lo naquele planeta mesquinho... mas agora ele será meu.

Um artefato passou ligeiro diante dos meus olhos e arrebentou a realidade que eu via diante de mim, como uma bola de baseball lançada contra uma janela de vidro. Os pedaços caiam, como caco de vidro e o chão deixou de existir... fazendo com que eu despencasse em um negro espaço.

EI GAROTO, LEVANTA DAÍ, NÓS TEMOS QUE FECHAR, ACORDA!!!- alguém estava gritando.

Diabos, eu ainda estava no bar, levantei o meu rosto... minha pele descolou do balcão; na TV ainda se via comemorações de ano novo... o copo de whisky ainda estava alí. Girei 180º no banco em que estava sentado, levantei da cadeira, peguei meu copo e dei a ultima golada - tive a impressão de um deja´vu- retirei 50$ deixei em cima do balcão e caminhei em direção a saída. Retirei meu casaco do porta casacos e vesti... segurei a maçaneta da porta a minha direita e abri. O sol reluzia e causava dano aos meus olhos sensíveis por causa da escuridão.

Estranhamente o bar estava situado em frente à praia. Saindo de lá passei pela calçada atravessei uma rua deserta e finalmente estava do outro lado, já na areia. Comecei a andar e o local parecia deserto, o sol forte.. retirei meus sapatos e a areia estava quente, o calor insuportável...continuei a andar.

Avistei alguem ao lado de um pier, depois de andar por horas. Estava feliz, tentei correr até aquela figura estranha: era um homem. Estava longe ainda, não conseguia ver bem, mas ele vestia um terno escuro e o que parecia ser um chapéu social estava sobre sua cabeça... Era alto, a medida que eu me aproximava pudera perceber.

Mas ao passo que eu me aproximava o tempo ia ficando mais frio, cada vez mais frio, gelado. Foi então que começou a chover forte e eu segurava minhas vestimentas para que não voassem... o vento soprava furioso. Parece que... maldição... o clima tinha vontade própria e não deixava eu me aproximar. A cada passo ficava mais difícil. Então, de chuva mudou para neve e de neve mudou para nevasca. Droga -eu pensava- como vou chegar ate lá!! Mal conseguia andar. Mas estava determinado, apertei com força a gola do casaco e continuei de cabeça abaixada. Andando sobre a areia.

Maldito homem que usa chapéu- praguejei-. Não sabia como aquele clima hostil não o afetava, ele estava lá imóvel, não movia uma palha para me ajudar, exceto pelo cigarro que tirava lentamente do bolso esquerdo do paletó, levava até a boca e acendia com um esqueiro dourado que reluzia como o sol.

Finalmente estava chegando mais perto e mais perto... o vento ja estava me travando.

O sobretudo negro do homem de chapéu parecia ter vida própria, da forma que se movia com o vento parecendo os malditos cabelos de Lúcifer. Quando dei por mim, tinha caido de cara no que antes era areia, agora era neve. Parecia que o clima tinha voltado ao normal, quer dizer, não tinha mais vento.. embora eu não conseguisse retirar o meu rosto enterrado na neve. E cada ves sentia mais o meu rosto enterrado na neve.

Era o homem de chapéu: ele levantou sua perna direita, abriu um sorriso irônico que brilhava como uma sentelha de luz percorrendo seus dentes brancos.... e sem compaixão pisava e afundava meu crânio mais e mais na neve branca e gelada. Até que derrepente eu vi uma coisa realmente maravilhosa por baixo da areia de neve. continua>>>

2.1.11

Fragamentos do "Diálogo com a sombra".

A tela da TV, em todos os canais, só passavam comemorações de ano novo. Dois mil e onze era agora o destino de todos nós! Levantei do balcão entornando o resto de whisky goela a dentro e juntamente com uma nota de $50 devolvi o copo ao balcão sujo, na esperança de que a nota continuasse alí até que o barman a pegasse. Caminhei em direção à saída escutando os murmurinhos e felicitações um dos outros, peguei o meu casaco no porta casacos, abri a porta e um vento frio praticamente me cortou a espinha. Porém, eu não podia voltar. Ajeitei a gola do casaco e agora eu estava na rua, caminhando... meus olhos não estavam muito bem, pareciam tontos. Talvez fosse o efeito do álcool: não importava, porque eu não sabia onde queria chegar.

Quando dei por mim eu estava em um beco escuro e uma voz rouca gritava: É UM ASSALTO! ME PASSA A SUA CARTEIRA, SEU ALMOFADINHA DE MERDA!. Sem entender muito bem o que se passava eu desejei um feliz ano novo ao ladrão e agradeci a gentileza. No entanto, este fato o desagradou, fazendo com que o mesmo desferisse um murro na minha face que me jogou no chão. Então sem me mover e com os olhos voltados para cima eu disse que só tinha um cartão de crédito com limite estourado e uns trocados na carteira... Furioso ele sacou o revolver, ou eram dois revolves? Eu não enxergava muito bem.

Puxa o gatilho e você me fará favor...apenas um motivo, uma razão é tudo que eu preciso para me ver fora deste mundo- eu disse.
Seu desejo será realizado, vejo você no inferno- disse o ladrão.
Um rosto se formava no rosto do ladrão, um rosto de sorriso irónico e dentes brancos que brilhavam na luz do luar. Homem de chapéu!- eu gritei.

Quando ele puxou o gatilho tudo desacelerou e o projetil vinha linear em direção ao meu corpo caído no chão, cortando o ar e as gotas d´agua (percebera agora o tempo chuvoso), porém eu era incapaz de me mover. Era como se o destino fosse ela, prestes a ser atropelada, atravessando uma rua; e eu atrás de um vidro transparente esmurrando-o sem poder fazer nada.

Meu corpo foi atingindo... então pensei que tudo acabaria bem. Mas não!!!... eu ainda estava respirando, me levantei e o ladrão saiu correndo em disparada.
Idiota não presta nem para puxar o gatilho-gritei.

Olhei ao meu redor e a chuva caia normalmente, meus olhos estavam bons e eu não estava mais tonto. Todavia ao olhar para o chão verifiquei um corpo estendido... era o meu corpo! Abaixei e tentei tateá-lo mas minhas mãos o penetravam. Olhei para minhas mãos e levantei estupefato. SIMMM eu estou morto! Olhei para cima e vi uma luz - já vi isso em relatos de vida após a morte no Discovery, pensei-.

Descia dessa luz uma linda mulher de longos cabelos louros, olhos azuis e vestido branco.

Ela estava a uns dez metros a minha frente... caminhei em direção a ela e ela em direção a mim, mas quando ia toca-la duas sombras, sabe-se lá de onde saíram me agarraram cada uma por um braço e me afundaram no solo. E não importava o quanto lutasse eu cada vez mais descia mais fundo.

Aproveitei para apreciar aquela paisagem mórbida de terra, carvalho, pedra e mais pedra , agua, pedra e finalmente magma. Quando pensei estar no centro da terra, um lugar de beleza peculiar se fazia diante de meus olhos... era grande e eu estava voando junto aquela sombra. Até que ela me largou e eu caia, caia , caia , caia... não parecia ter fim, mas finalmente cheguei ao solo: um estrondo enorme se ouviu por todo local: era o meu corpo tocando o chão.

Levantei-me com cuidado e sentindo muita dor... o local era um planície gramada, uma grama vermelha. O céu era vermelho e trovões riscavam esse céu.

Por alguns minutos fiquei extasiado olhando para essa paisagem "divina", quando derrepente, em minha direção vinha uma figura estranha caminhando delicadamente. Uma figura feminina e masculina, mais masculina do que feminina... alto, deveria ter 1.90 de altura, longos cabelos negros como a noite, olhos negros e pele extremamente pálida, parecia ter o rosto carregado de uma maquiagem branca que se desfazia a medida que lágrimas escorriam de seus olho... lágrimas que pareciam ficar negras, na medida em que escorriam e borravam a maquiagem.

Enquanto caminhava em minha direção, a criatura estendia os braços como o cristo redentor , cartão postal do Rio de Janeiro. Quanto mais se aproximava assas ficavam visível e cada vês mais visível, assas negras que eclodiam de suas costas em direções opostas. Grandes assas negras.

Um grande poder circulava aquela figura, tanto poder que quase me obrigava a ajoelhar e louvar; e cada vez que se aproximava ficava mais forte. O meu espírito ou, seja lá o que eu fosse, estava em êxtase... o medo não era uma opção.

A mais ou menos uns cinco metros de distância de mim eu disse: É você.... é você... LÚCIFER?. continua>>>