22.11.07

O julgamento definitivo.

Aquela avenida larga parecia ter sido bastante movimentada no passado, como as largas avenidas de Nova Iorque ou Buenos Aires. Mas hoje eu só via destroços e prédios em ruínas em suas margens... até que algo me chamou bastante atenção: ao longe, era o homem de chapéu... ele vinha andando lentamente com o olhar perdido no horizonte, seu olhar se dirigiu para um prédio -- estranhamente eu não havia notado sua presença, até dirigir meu olhar para o homem de chapéu e perceber o referido prédio --.

Eu me encontrava em um banco paralelo à avenida. Dez metros a minha esquerda vinha andando o homem de chapéu, e a minha direita , não mais que uns 50 metros, estava o prédio. Possuía uma arquitetura moderna, era todo de vidro azul escuro. Uma escadaria levava o pedestre até a entrada do prédio que possuia uma grande porta que parecia ter um censor de movimento, semelhante aos shoppings. Mais acima haviam dizeres escritos em neon -que piscavam sem parar-: PRÉDIO DA UNIDADE JUDICIÁRIA.

Nesse momento o homem de chapéu acabou de passar por mim, desferindo àquele sorriso sarcástico característico. Como de costume, trajava um terno negro, sapatos negros e o chapéu social; detalhe para uma maleta preta que segurava com a mão direita. Certamente ia em direção do prédio da Unidade Judiciária.

Ao chegar a escadaria-- passando inevitavelmente por uma quantidade relativamente grande de destroços-- parou em frente a mesma, colocando a maleta preta no chão delicadamente. Olhou para cima esticando a mão direita em direção aos letreiros em neon e sorria. Logo após, retirou do bolso do paletó com a mesma mão um isqueiro juntamente com maço de cigarros, cuja embalagem continha o desenho de uma espécie de teia de aranha na cor verde. Com a mão esquerda fez uma espécie de malabarismo com os dedos que acendeu o isqueiro rapidamente; logo após, jogou o maço em direção a boca, de forma que apanhou com os lábios um único cigarro. O cigarro parecia um tocha medieval--eu não percebera mas já era noite-.

A figura de chapéu pegou a maleta no chão e rapidamente subiu as escadas. Chegando até a entrada as portas se abriram como mágica, expondo todo o térreo do prédio. Era estranho! haviam inúmeros "clichês" como aqueles em que se comprava ingresso para um filme no cinema. Eram muitos e estavam enfileirados um ao lado do outro à perder de vista. Logo em cima dos tais "clichês" a palavra PROTOCOLO passava por um painel digital.

Quando as atendentes avistaram o homem de chapéu se alvoroçavam e cochichavam umas com as outras: "é um advogado", "como é possivel que ainda exista um advogado?", "o que será que ele quer?, "parece mesmo ser um advogado", "espero que ele venha até a minha cabine". "Vem advogado", "advogado", "advogado": assim todas elas gritavam.

O homem de chapéu apanhou o cigarro entre os dedos, sorriu ironicamente, estufou o peito e caminhou em direção a cabine numero 6. Chegando até a cabine, levou a boca até a abertura circular do vidro e falou em voz baixa:
-Minha querida, gostaria de protocolar esta petição para qualquer juiz.--retirava da maleta duas folhas amarelas de papel que pareciam mais pergaminhos e entregava pela abertura do balcão.
-Tudo o que o senhor desejar, advogado! Nós temos muitos juízes aqui. Eles terão prazer em analisar o seu pedido... mas é claro, tendo em vista que a mais de 100 anos não há advogados em lugar algum-- disse a atendente.

O homem de chapéu olhou nos olhos da atendente, acendeu um cigarro, deu a primeira tragada e cuspiu a fumaça no vidro da cabina. A moça enclinava-se tentando ver o rosto do homem de chapéu mas só ouviu uma voz que disse: volto para buscar a minha sentença, minha querida hahahaha.

A moça que agora se podia ver melhor, era loira, alta longos cabelos lisos e olhos azuis, levantou-se da cadeira -trajava um vestido vermelho colado ao corpo realçando suas curvas e um chapéu pequenino, que mais parecia uma lata de sardinha em cima de sua cabeça. Com a petição em mãos a loira caminhou em direção a um tubo estranho que subia e perdia-se de vista. Ela destampou a entrada do tubo e colocou a petição de forma que ela foi succionada pelo que parecia um vácuo. Logo após a atendente voltou para sua cadeira e alí ficou.

A petição subiu por um tubo a uma velocidade incrível, parecia fazer uma viagem pelo céu e o inferno, quando caiu de qualquer forma na mão de um subordinado da Justiça que levou o pergaminho até uma sala cuja entrada tinha o seguinte nome: Núcleo de Juízes.

Excelências, essa petição acaba de chegar-disse o subordinado para os juízes que se encontravam sinistramente reunidos--
--Sim! De-me isso imediatamente-- falava o juiz mais velho com tom arrogante.

Apanhou o pergaminho abriu-o com o devido cuidado, suficiente apenas para não desmanchar aquelas folhas velhas... algum tempo depois o velho juiz bradava:
--Isso é um absurdo! Não vou julgar esta ação.
--De-me isso para que possa avaliar- falava o juiz que sentava ao seu lado,-- Isso é um disparate, como ousa peticionar dessa forma para um juiz.

Todos os juízes discutiam e passavam a petição do homem de chapéu uns para os outros para que pudessem analisar. Até que com certa demora, um juiz italiano que fazia parte da reunião de juízes fala: eu julgarei está ação!!!

Excelentíssimo (tratamento dado a indivíduos de categoria social superior), assim eles se intitulavam. Excelentíssimo Senhor Doutor Leonel Rossi. Juiz de Direito. tinha um histórico brilhante na resolução de conflitos, na ponderação inata da justiça. Famoso por resolver de imediato e com a concordância de ambas as partes, ganhou o respeito e a reverência daqueles que litigava e tinham a lide sobre seu arbítrio.

Esse juiz aparentava jovialidade, mas não sei o que deu nele para aceitar julgar uma ação proposta pelo homem de chapéu. Ele nem era advogado, aliás, nem eu sabia o que era o homem de chapéu.... seria ele advogado?

Dr. Rossi agora em seu gabinete , sentado em sua cadeira rústica e de fabricação aristocrática. Escrevia com uma caneta em forma de pena, a sentença.

SENTENÇA
....
Por todo exposto: fundamento de direito. E pela honra que me foi atribuída em função do cargo que exerço, pondero o pedido em questão, julgando IMPROCEDENTE a declaração de INEXISTÊNCIA DA JUSTIÇA formulada por autor que se julga homem além da Justiça e de Deus.

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Leonel Rossi
Juiz de Direito

Estava acabado, Leonel tinha dado a sentença... só faltava uma coisa: assinar a sentença, e pronto, fim do homem de chapéu. Uma gota de suor escorria de sua testa passando pelo seu rosto. O que estava acontecendo?-pensava ele- eu estou hesitando! Não pose ser, o que está acontecendo comigo? Jamais tive duvidas ao aplicar a lei e os princípios do direito. Por toda minha vida fui um homem abençoado e convicto do que era certo, do que era justo... para mim era evidente. Mas agora, O QUE É A JUSTIÇA?
Não importa, isso é o diabo me tentando... sou discípulo de Deus e acredito na Justiça dos homens como sendo uma extensão inacabada da Justiça do grande mestre divino... vou assinar a sentença a qualquer custo e declarar o que já é a verdade absoluta.

Leonel agora encarava o processo recém autuado por ele mesmo como algo pessoal: jogou a caneta em forma de pena para longe e retirou do bolso do seu paletó italiano uma caneta de ouro puro, na qual usava para assinar as sentenças de mais peso e relevância para a sociedade.
Ao tocar a ponta da caneta no papel, ele ouve um estrondo.

Era o homem de chapéu que entrava em seu gabinete aplaudindo e sem pedir licença--. Leonel olhava assustado para aquela figura de preto que para ele parecia a reencarnação do próprio diabo.

--Afaste-se ou chamarei a segurança -- gritava o juiz-
--Não se preocupe doutor, vim apenas pegar a assinatura para minha sentença.
--Como assim sua sentença? Já julguei o seu pedido, somente me falta assinar, o que estou prestes a fazer!
--Não se dê ao trabalho! Trouxe aqui a sentença já pronta, não se dê ao trabalho! -falava sinicamente o homem de chapéu-
Entregou a Leonel um apanhado de folhas que julgavam procedente o seu próprio pedido.
--É um absurdo, isso não vale nada, não é legitimo...o senhor não pode proferir sentença alguma! Isso não passa de um engodo.
--Exatamente-- disse o homem de chapéu-- Por isso preciso que assine esta sentença. E se se recusar, Leonel, será castigado!
--Leonel, faça uma força e lembre-se do parque, da árvore, da sua irmã que pendia como uma maça podre... você se lembra? ela estava caindo. E você, covarde! tremia de medo em cima daquela árvore e não tinha forças para apanha-lá. Tadinha, ela gritava tanto mas o irmão covarde tinha medo de apanha-lá.
--Cale a boca maldito!!! Como você sabe; você não sabe de nada.. minha irmã.--Leonel falava, ao mesmo temo que lágrimas escorriam pelo seu rosto--.

O homem de chapéu aproximou-se mais da mesa onde estava Leonel e inclinou-se em sua direção. Leonel parecia recuar com os olhos.
-- Sabe o demônio que salvou sua irmã?-- falou quase sussurrando no ouvido do Juiz.
Leonel agora lembrava: em vez de salvar sua irmã se arrastando até a ponta do galho em que ela estava pendurada, segurando-se com toda suas forças, ele rezava. Rezava para Deus enviar um anjo que salvasse sua irmã antes de cair. No entanto parece que o Deus em que ele acreditava havia lhe virado as costas, e quem aparece é um demônio vermelho de longas asas. Tal demônio vinha dos céus pronto para agarrar a garotinha pelas pernas. Segurava-a como um frango pronto para o abate. Parecia que ia devora-lá... Leonel não parava de chorar gritava para que Deus libertasse sua irmã das garras daquele demônio maligno.
--Leonel, eu ordenei para que o demônio lhe devolvesse a sua linda irmã. Inclusive eu a vi no protocolo desse prédio asqueroso. ah, como estou com tempo livre, acabei de marcar um encontro: eu e ela a sós. Sabe como é Leonel, eu tenho uma queda por loiras de olhos azuis. No entanto, eu vim cobrar o preço pela vida dela... ASSINE A SENTENÇA MALDITO!!

Leonel nada podia fazer diante da ameaça do homem de chapéu, que apesar do tom de vós parecia tranqüilo, com o seu sorriso sarcástico característico.

O homem de chapéu de forma furtiva retirou a caneta de ouro na qual Leonel supunha que ia assinar sua sentença, levou a até a boca e a partiu com os dentes. Logo após, pegou sua caneta e a entregou para Leonel reinteirando para que ele assine a sentença.

SENTENÇA
....
Diante da obvieidade das alegações aqui explanadas, é evidente que a sentença só poderia chegar a uma única conclusão, mesmo, quem sabe: contrária ao direito e a superstição de alguns tolos, ou da maioria deles.
Quando se joga os dados, deve-se aceitar as múltiplas possibilidades da vida. Ousa-se para reinventar. Diante disso JULGO PROCEDENTE A AÇÃO DE INEXISTÊNCIA DA JUSTIÇA.

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Leonel Rossi
Juiz de Direito

Leonel agora suspirava, com a caneta na mão e com lágrimas nos olhos, assinava a sentença -- nesse momento o homem de chapéu caminhava até a grande janela do gabinete e a escancarou--.

E agora Leonel, é capaz de viver com essa decisão ou prefere dar um fim a sua vida? --perguntava o homem de chapéu , sorrindo e fumando seu cigarro.

Leonel-- agora sério-, levantou de sua cadeira, ajeitou a gravata, atirou a caneta no lixo que encontrava-se encostado na parede a sua esquerda, e andou em direção a janela. Colocou o pé direito para fora da janela, o vento esvoaçava seus cabelos e dava vida própria a sua gravata-- ele jamais percebera que seu gabinete ficava tão alto, tão alto naquele prédio; só agora ele percebera quão distante estava das decisões que proferira--, agora mais um passo e estava totalmente fora do prédio, amparado só pela passagem de sustentação para não cair.

Antes de se jogar do trigésimo andar, Leonel pensou: não se deve viver com o peso de um arrependimento.

O homem de chapéu guardou a sentença, agora devidamente assinada por um Juiz de Direito, e se retirou do gabinete... sem se esquecer de apagar as luzes antes de sair.





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