11.5.07

A Justiça no banco dos réus.

Escancarou as portas do tribunal do júri e entrou. Seu sapato fazia *toc*toc*toc* no piso de madeira enquanto caminhava em direção a mesa do juiz. Olhava para um lado e para o outro; existiam quadros pendurados nas paredes que mostravam julgamentos públicos no período em que Roma quase dominara o mundo.

Passou ao lado de uma mulher, não reparara bem em seu rosto... continuou em frente! Deu a volta por trás do que lhe parecia um palco subiu um degrau; afastou uma grande cadeira esculpida em madeira com um forro vermelho e sentou confortavelmente. Olhou a sua frente e via como se fosse o lugar para uma platéia, mas as cadeiras estavam vazias. Abaixou o olhar; viu um pequeno cercado em volta de uma cadeira. Sentada nesta cadeira encontrava-se uma mulher. Ela era muito bonita: era magra, possuía longos cabelos loiros, trajava um vestido branco longo, cujo limite era os pés. Nas suas mãos ela empunhava em direção ao homem de chapéu uma balança, no qual os pesos eram desiguais. No entanto, ele parecia surpreso ao perceber tardiamente que seus olhos estavam vendados. Cega -- provavelmente pensara--.

O homem de chapéu sentado na cadeira de juiz olhava para aquela moça que despertara desejos em tantos homens.... ele sorria, seu sorriso maroto e zombeteiro. Ela então levantou-se e disse em voz alta: Eu criei o poder do que é justo, da ponderação, da eqüidade. Sou a JUSTIÇA. E esta é a minha balança --mostrava a balança--.

O homem de chapéu retirou um maço de seu paletó. Pegou um cigarro levando-o delicadamente até a boca. Após acendê-lo.... o primeiro trago levou a fumaça de mel até seus pretos pulmões. Olhou com bastante atenção a fumaça que expelia pela boca e via como ela facilmente vencia o peso da gravidade.

EU SOU A JUSTIÇA- gritava aquela mulher --. No entanto, aqueles que me eram fieis, corromperam-se, venderam-se, prostituíram-se. Fui desonrada, vendida... Nada mais me resta. Agora "eu devo" ser julgada em meu próprio tribunal, pois os criminosos são e devem ser julgados como iguais.

O homem de chapéu sorria, seu sorriso era branco e sarcástico, um sorriso lateral, daqueles que se mostra o canto da boca.

Homem de chapéu, tu que és um infame, imoral, inescrupuloso... não possui leis nem regras a seguir. Somente vos sois capazes de me julgar.-- esbravejava a loura--

O homem de chapéu levantou-se da cadeira afastando-a para trás. Retirou o cigarro da boca e jogo-o próximo a cadeira dos réus, onde estava a JUSTIÇA. E então ele desceu as escadas do palanque e caminhou até a cadeira do criminoso.

O que faz aqui homem de chapéu!!! Deve me julgar lá de cima! -- falava--

Vim para baixo, vim dar tua sentença... já sei qual a sua punição.
Ó que ela seja JUSTA, mereço não menos que a morte.
Qual a minha sentença?
Sua sentença é .... ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA!!! hahahahahahahahahahahahahahahahaha
Por que, mas porque estou sendo absolvida de todos esses crimes? -- inconformada era a justiça!--

Não conheço pena ou peso maior do que o arrependimento, se pudesse tiraria-o de você. Mas tu herdastes esse mal.
Quando os homens não mais lhe seguem... isso não quer dizer torpeza de caráter, mas uma descrença em seus ideais. Os homens agora procuram a satisfação de seus prazeres mediante o luxo momentâneo. Não conseguem mais olhar o futuro... Não existem culpados! Isso é apenas a vida que segue o seu curso. Justiças caem e Justiças levantam, sua justiça que crê ser absoluta, não existe.
A descrença dos homens no ideal de justiça é terreno preparado para novos valores, para novas formas de viver. Sou o homem de chapéu e posso ver graças a um sentido que me foi herdado. Posso ver que novos homens estão sendo preparados para este mundo.
Esperai-os, Ó novos homens! Eles são a ponte para novas formas de viver. Eles têm os seus próprios sonhos infames, e buscarão realiza-los.
Isso é o que eu chamo de paixão.

E você velha justiça! Sabe o que é paixão?

O homem de chapéu agarrou-a pelos braços inclinou o seu corpo sobre ela e a beijou. Logo após em seu ouvido, pronunciou a seguinte frase: isso é paixão!

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