26.4.07

O crucificado: nobre ou escravo?

Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso? Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. Inclinando-se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele. Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.


Após estas palavras proferidas por Jesus, em meio a multidão de fariseus que se dissipavam, um homem trajando uma vestimenta não conhecida da época- usava um chapéu grande e preto, conhecido hoje como chapéu social-- e com uma pedra na mão, aproximou-se de Jesus e pois-se a baixar a cabeça.

Jesus então, tocou-lhe no ombro e disse: meu filho, tu es mais antigo do que eu. O que fazes nesta terra?
-- Estava pronto a atirar esta pedra. Veja como ela brilha quando a ponho contra o sol!
-- Queria atira-la contra aquela pobre mulher, mas não o fez. Pensaste melhor a respeito do pecado que porventura cometestes?
-- Não conheço pecado algum, a não ser o pecado cometido contra a vida -- disse o homem sorrindo ironicamente.
E tu filho de Deus? Comete o maior pecado quando daqueles homens começa a surgir a consciência de culpa. Peso maior terão de carregar eles e seus filhos.... Digo que fosse melhor que tivessem atirado todas as suas pedras. Mas agora sentem-se culpados.... não tanto a si mesmos mas seus filhos herdarão.
-- Homem antigo eu vos digo se tivesse apedrejado aquela pobre mulher, ao meu pai não poderia satisfazer!
-- Tu intitula-se filho de seu pai, mas se tivesse mãe eu diria: não há pecado maior do que àquele cometido contra a vida.
Se em prol de sua mãe tivesse agido, teria dito que somente na natureza o mais forte se insurge contra o mais fraco. Mas assim faz, somente quando a fome ou o desejo sexual torna tudo necessidade. Todavia, os olhos daqueles homens eu só via ódio. Não via fome e nem desejo sexual.
Agora eu vejo a culpa. E vejo a culpa nos seus filhos e nos filhos que estão por vir, pois a onde eu vivo a guerra foi travada contra os últimos homens que ainda louvam o seu nome.
-- Homem antigo, conheço todos os filhos de Deus. O pecado a que tu dizes eu não conheço e nem a meu pai, pois só cumpro a vontade do meu pai.
-- Sou o filho do demônio e o único que conhece o peso do destino. Venho de um mundo em que instituições foram criadas para perpetuar o que vos dizes. Mas apenas como fundamento de sua vingança pessoal.
Eles intitularam-se "últimos homens"

Cada princípio ou cada diretriz que encontra seu fundamento e sua suprema justificação em "além-mundos" necessita da força psíquica de cada homens que nela deposita sua fé. Tal força cria no princípio um centro de gravidade que atrai outros homens. Tal atração gera um peso que engendra cada homem de forma que ao princípio seja submisso. Sua simples crença ou sua hipocrisia pesam ainda mais sobre ele.
O homem de chapéu: sobre ele não existe mais o peso gravitacional do princípio. Agora ele vaga livremente pela história criando suas verdades como um homem livre. Este homem de chapéu agora vê no riso irônico a única forma de castigar os homens. Este homem a-histórico vaga pelos mundos como uma alma ou espírito errante e sobre ele os homens tentaram lhe por o peso de suas calúnias.
Demônio, satânico, imoral, injusto.... todos os adjetivos que o homem encontrou na sua própria sombra e destino, tentaram fazer pesar sobre o homem de chapéu. Tudo isso fez dele alguém com má reputação. Mas o que importa isso ao homem de chapéu? Sua má reputação agora cria a sua boa fama.
Fechem os olhos, últimos homens. Em seus sonhos jamais viram um homem de chapéu? Um homem negro, semelhante a um carvão. Ou era branco como leite azedo e sua vestimenta era negra como é o espaço infinito?
Ele ri, ri de suas calúnias, pois ele não ama os homens e não seria capaz de morrer pelo homem.

"Retirou do bolso oculto em seu paletó um cigarro e o levou até a boca, mais precisamente no canto esquerdo de sua boca... olho para o alto e viu uma estrela, cujo brilho ofuscava os seus olhos; então pensou: ela esta tão longe que provavelmente não existe mais. Riu em voz alta!!! Alí está o meu próximo destino!!! E assim caminhou em direção a ela...."

O crucificado: nobre ou escravo?

Teria sido o crucificado, um homem nobre?

vos dizia que com o arrependimento viria o perdão; no entanto ele nunca arrependeu-se
vos dizia que atirasse a primeira pedra aquele que nunca pecou; no entanto jamais atribuiu-se algum pecado
vos dizia que amasse o próximo como a ti mesmo; no entanto amou mais o próximo do que a si mesmo
vos dizia que diante do pai todos são iguais; no entanto diante dos homens não considerava-se como igual
Perdoa os homens pois eles não sabem o que fazem, assim foi crucificado. Um homem que certamente nessas palavras não sentia-se igual!
Com o coração afastado do ressentimento, amou mais aos homens do que a mãe terra, assim foi crucificado.

A figura trajava um terno preto e um chapéu social preto. E após seu breve discurso sobre Jesus para um platéia que se alto denominava "últimos homens", abaixou a cabeça retirou um cigarro com a mão esquerda do bolso de dentro do paletó e o levou até a boca, ao mesmo tempo que retirava um isqueiro prateado do bolso da calça.
Lembro-me que as duas tentativas iniciais para acender o cigarro falharam;-- a platéia olhava estupefata, aquela cena que parecia nostálgica--mas na terceira tentativa uma chama azulada ascendeu o cigarro daquela figura e, após o primeiro trago, uma fumaça adocicada invadiu o recinto.
Senti naquele momento que meu espírito libertava-se das amarras de um destino cruel. Não fui capaz de me intitular último homem.