21.4.06

A relha do arado.

Sou um homem bastante sensato, no que se refere a escolha das sementes que irei lançar ao solo para que dêem frutos. Desejo sempre os melhores frutos; os frutos mais doces e pomposos. Todavia, encontro-me cansado. Cansado de separar, pois são tantas sementes e tão variadas; tantos tipos diferentes. Eu gostaria de lançar todas ao solo, sem me preocupar com boas ou más sementes; gostaria de poder colher todos os frutos e saboreá-los sem me preocupar se são ou não venenosos.

Sementes ruins também fazem filosofia, meus amigos, gostaria de nunca pensar em escrever sob o efeito do veneno dos frutos maus. Mas acredito que não exista muita escolha quando sou acoitado por uma paixão na qual eu deveria dizer: basta, sou um homem forte e essa fraqueza degenera meu espírito. Ter consciência de que nada se pode fazer e saber que a fraqueza supera a vontade; ter consciência de que se é fraco, constitui um peso maior do que o ressentimento para um homem viril. Contudo, o que se sucede?

Certa vez, deparei-me com uma linda moça de olhar profundo: ela era um pequena moça de cabelos castanhos pele branca e olhos de mel. Tal moça abraçava um ideal; minha intuição me dizia que esse ideal era forte. Eu a observava, observava seus passos, seu caminho sua meta, mas, sem toca-la. Percebi que o mundo que criei era uma realidade tênue, eu precisava daquela moça, precisava me dirigir até ela.

Aproximei-me dela, e disse Oi. --Ela disse: Oi...

O tempo não parecia bom, pois as horas passavam rápido, dias meses, um ano. Tive uma visão: a moça estava de frente para um espelho, seu reflexo era perfeito, ela jamais me perdoaria se dissesse que era apenas um espelho. Que devia se superar, aceitar a vida pelo que há de imperfeito, pelo que há de mal e de bom.

Ela passou a me odiar, ou talvez a me desprezar -- se há alguma diferença. Ela me amava, mas seu amor era mal para comigo, mas era amor. Sinto-me muito triste por não ter o bom amor, por nunca ter sentido o bom amor da compreensão, os sentimentos agradáveis, os sentimentos que me são mais úteis.

A solidão sempre me acompanhou quando escolhi viver sem espelhos, não posso me olhar em um espelho, minha imagem não pode ser refletida. Eu sou eu, sou meu pai, sou minha mãe, sou meus amigos, meu irmão, sou cada pessoa que anda por aí. Sou deus. Sou um sósia.

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