23.3.06

O único princípio deveria ser a ausência de princípios.

Verifiquei em meu relógio e nele constava 17:00h. Estava eu próximo a uma palmeira, pés descalços roupa bem confortável olhando para o mar; o vento soprava jogando um pouco da areia fina contra o meu rosto, no entanto, nada tirava a minha atenção para àquele ponto do mar. Olhava fixamente, a uns 300 metros da praia as ondas batiam em um rochedo próximo ao pier. Naquele momento eu lembrava que quando criança um certo professor me dissera: “sabia garoto, a agua é a força mais poderosa desse mundo”. Na minha cabeça aquilo soou muito surpreendente, eu custava a acreditar, pois, como era possível? A água uma substancia tão maleável, tão comum, tão fraca – pensava eu – podia ser a força mais poderosa? Mas era evidente para mim agora, provavelmente em alguns séculos aquele pier e aquele rochedo não iriam mais existir – contive um sorriso—provavelmente a força da agua iria desgastar tudo aos poucos.

Enquanto pensava em tudo aquilo e olhava para o rochedo, uma coisa bem incomum me surpreendeu: a água que se chocava contra o rochedo começou a tomar forma, uma forma estranha e bem humana, uma pequena ondinha vinha em direção a praia e, quando não tinha mais para onde ir se levantou em forma de um homem. Fiquei chocado naquele momento, era um homem feito de água! Ele era transparente: eu podia ver através dele! Eu não podia correr - não queria -. Aquela figura estranha veio caminhando em direção a mim bem lentamente. Parou frente a frente comigo. Enquanto eu olhava para “aquilo” eu via minha própria imagem ofuscada sendo refletida em seu corpo e via o horizonte atravéz dele. Derrepente na altura do coração do lado esquerdo do peito uma centelha brilhou: era um brilho roxo meio avermelhado. Não pude evitar... estiquei o braço para toca-la, minha mão adentrou o corpo daquela figura de água: era água mesmo—pensava eu. Quando inesperadamente o “homem líquido” se desfez diante de mim. Derreteu como um sorvete em dia de sol e ficou lá: prostrado ao chão.

Sem agachar eu comecei a olhar para os restos, ou melhor, para aquela pequena poça dágua que havia se formado. E algumas imagens começaram a se formar para mim: eu via guerras, guerreiros, lutas, vi grandes homens, via Jesus, via César, Hitler, Buda, Filósofos, etc. Sem uma ordem cronológica dos acontecimentos. Meio que sem saber o porque, eu pisei em tudo e desfiz aquelas imagens. Fechei os olhos e por um momento um pensamento me tomou como um raio: todos aqueles homens que eu havia visto tiveram algo em comum, primeiramente eram amorais, até mesmo Jesus – pensava eu. Todos eles criaram sua moral, criaram seus valores, quem sabe até valores absolutos. E viram o mundo a sua maneira, deram respostas ao mundo sem as absorverem de nenhum outro. Contudo, porque será que todos eles se encontravam sob meus pés naquele momentos? A resposta era simples, simplesmente eles já tiveram o seu tempo, a sua oportunidade. Já eu, estava vivo - sentia-me liberto ao pensar assim—e tinha em mãos todas as possibilidades, todos os caminhos, sem qualquer amarra – agora eu sentia-me como o próprio Deus. A criação estava dentro de mim, e de lá, um novo mundo iria se formar. Mas por enquanto a única coisa que eu sabia sobre esse novo mundo era suas siglas, cujo sentido era desconhecido e seu significado uma promessa: SLC

Abri os olhos lentamente e vi uma mulher de vestimenta branca, ela tinha cabelos longos e negros, sua ascendência era oriental. Eu a conhecia, ela é o meu único destino. Seu nome:– solidão.

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